Anathema

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Os ingleses Anathema têm uma história de sobrevivência para contar. É verdade que têm uma posição privilegiada desde que, ao lado dos Paradise Lost e My Dying Bride, deram uma injecção de criatividade ao doom britânico e acabaram por inspirar toda uma nova tendência underground. No entanto, já tiveram de enfrentar muita turbulência (leia-se mudanças de formação) e, com uma lucidez impressionante, conseguiram sempre manter a sua personalidade inalterada e levantar-se com a cabeça erguida. Quando se juntaram, em 1989, eram apenas um grupo de amigos com gosto comum pela agressividade do death metal, a lentidão paquidérmica do doom e os ambientes góticos, chuvosos e trágicos – tão britânicos. Os dois irmãos Cavanagh, Vincent e Daniel, lideraram desde cedo a banda que, em 1992, se estreou com o EP «Crestfallen» e o primeiro longa-duração, «Serenades». Transformaram-se, de imediato, numa das mais aplaudidas sensações do fértil movimento underground europeu na viragem da década de 80 para a de 90. Com o EP «Pentecost III», lançado em 1995, atingem o pico da sua fase como entidade mais explicitamente agressiva e épica, invocando o espírito dos Black Sabbath de uma forma inquestionável e assinando o pináculo da primeira fase da sua carreira com a épica «We, The Gods». A plataforma para um processo constante de reinvenção começou com a saída do vocalista Darren White. Vincent Cavanagh passou a acumular as funções de guitarrista e vocalista, apoiado no irmão mais velho Daniel, guitarrista e a principal âncora do grupo. Depois de muitos toques e alguns reajustes a formação da banda fica, em 2010, completa com o Cavanagh mais novo, Jamie, no baixo, Les Smith nas teclas, John Douglas na bateria e, a última adição ao grupo, a sua irmã Lee, nas vozes de apoio.

As mudanças de formação foram, de facto, muitas ao longo dos anos, mas os Anathema parecem ter atingido a estabilidade essencial para não darem passos em falso ou, o que não seria impensável tendo em conta que estamos a falar de um projecto constantemente à procura de novas soluções para a sua arte, muito ao lado. Até porque, verdade seja dita, nunca os deram. O seu desenvolvimento tem sido bem sustentado e o crescimento, que já começa a merecer o estatuto de culto entre todos aqueles que já perceberam que o peso não tem necessariamente de estar apoiado no volume da distorção nas guitarras, a passos seguros. No período compreendido entre 1995 e 1998 lançaram três discos que marcaram para sempre uma geração. «The Silent Enigma», «Eternity» e «Alternative 4», todos com selo Peaceville, mostraram o grupo cada vez mais dedicado ao seu lado melódico e introspectivo, a banda-sonora perfeita para uma noite de Outono. Atingem assim um nível de exposição que nunca tinham tido até ali, juntando-se rapidamente no catálogo da Music For Nations. «Judgement» (de 1999) é um “clássico” para uma imensa minoria, sendo que «A Fine Day To Exit» (de 2001) e «A Natural Disaster» (2003), amplamente elogiados por revistas como a Metal Hammer, não gozam de um estatuto muito diferente. Mesmo assim, a cada novo lançamento a banda ia alargando as fronteiras da sua música e, com um som cada vez mais antémico e emotivo, a Natural Disaster Tour viu-os tocar em mais de trinta países e, numa digressão britânica de apoio aos finlandeses HIM, frente a mais de 30.000 pessoas numa só semana. Com a falência da lendária Music For Nations, a primeira das vítimas mais ilustres do declínio da indústria musical, os Anathema ficaram sem editora e isso veio abanar um pouco a sua estrutura. Felizmente mantiveram a visão intacta e, apesar dos contratempos, nunca pararam de compor ou tocar ao vivo – as passagens por cá, a solo ou como banda, foram diversas e ainda se mantêm bem vivas na memória de quem compareceu. Porque os Anathema são assim, alvo apetecível de paixões. Sete anos de «A Natural Disaster» e de um longo silêncio a nível de edições, interrompido apenas pelo semi-acústico «Hindsight», de 2008, estão de volta com o elogiado, e exemplo de uma vitalidade invejável, «We’re Here Because We’re Here».